Ex-secretário de Sorocaba recebeu pen drive para que edital fosse copiado antes de licitação em fraude de R$ 26 milhões, diz MP
17/04/2026
(Foto: Reprodução) Ex-secretário de Sorocaba (SP) recebeu pen drive para que edital fosse copiado antes de licitação em fraude de R$ 26 milhões
Instagram/Reprodução e Prefeitura de Sorocaba/Divulgação
O ex-secretário de Administração da Prefeitura de Sorocaba (SP), Fausto Bossolo, recebeu um pen drive com os detalhes da licitação para o kit de robótica que custou R$ 26 milhões. O dispositivo foi recebido da empresa antes do inicio do processo de licitação no qual ela foi vencedora.
A informação é do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), que denunciou ex-secretários Fausto Bossolo e Márcio Carrara e dois empresários pela compra feita em 2021, primeiro ano do primeiro mandato de Rodrigo Manga (Republicanos). Essa é a denúncia criminal sobre o caso. A Prefeitura de Sorocaba disse que não foi notificada, os ex-secretários não se manifestaram e um dos empresários negou irregularidades (leia mais abaixo).
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A premeditação do crime, segundo o MP, foi constatada após uma denúncia anônima recebida pelo órgão, que incluiu a entrega de um pen drive com arquivos contendo o termo de referência e o projeto do kit.
Uma reunião ocorreu em 2021 entre os ex-secretários da Prefeitura de Sorocaba. Nela, foram definidos os termos da licitação, tendo Wilson (Wilson José da Silva Filho, empresário) entregado um pen drive a Bossolo, então secretário de Administração. Carrara, titular da Educação, também teria participado da reunião.
O pen drive armazenava os termos do edital, segundo o MP, para, dessa forma, propiciar o direcionamento da disputa, por meio de simples processo de copiar e colar o documento do dispositivo USB no edital de Sorocaba.
“Ele chama atenção para o fato de o nome de Sorocaba estar escrito no objeto e revela que ele foi entregue ao funcionário “Felipe”, da Secretaria de Educação, responsável pela confecção do edital”, descreve a denúncia.
A perícia criminal realizada no dispositivo comprovou que as pastas com os documentos idênticos aos da licitação já haviam sido criadas em maio e junho de 2021, meses antes do pedido oficial de abertura do certame, que foi formalizado pelos secretários apenas em agosto daquele ano, atestando, de acordo com o MP, o conluio prévio entre os funcionários da prefeitura e a empresa.
O funcionário do prédio que recebeu o documento está presente na ação como testemunha.
Organização criminosa
A denúncia do Ministério Público ressalta que o empresário Wilson José da Silva Filho é figura conhecida das autoridades e apontado pela Polícia Federal, no âmbito da "Operação Prato Feito", como coordenador de uma organização criminosa focada em fraudar contratos públicos e corromper agentes em dezenas de prefeituras.
O esquema criminoso costuma utilizar familiares, "laranjas" e dezenas de empresas do mesmo grupo para simular concorrência, tática que foi integralmente replicada no esquema de Sorocaba.
Foi constatado que, na licitação da cidade, além da vencedora Carthago, outras duas empresas que apresentaram cotações de preços para a formação do orçamento também possuíam vínculos operacionais e societários indiretos com Wilson e seus filhos, configurando um "teatro fraudulento na apresentação de propostas para lesar o erário".
Diante do vasto conjunto de evidências, os dois ex-secretários municipais e os dois empresários foram formalmente denunciados por promoção e integração de organização criminosa, além de fraudes licitatórias diversas, cujas penas máximas somadas ultrapassam quatro anos de reclusão.
O que dizem os citados
Em nota, a Prefeitura de Sorocaba disse que não foi notificada sobre o caso, e que prestará todos os esclarecimentos necessários ao órgão quando solicitado.
Os secretários municipais foram procurados pelo g1 para comentar a situação, mas não haviam se manifestado até a última atualização desta reportagem.
O empresário Omar Freddi, da Carthago, afirmou que a empresa "está sofrendo as consequências desse processo já há 4 anos, tendo suas atividades praticamente encerradas, com grande prejuízo".
"Se houve alguma movimentação recente não ficamos sabendo e reiteramos que a empresa sempre foi sólida e sempre trabalhou dentro dos melhores princípios de honestidade e cumprimento das leis", acrescenta.
Wilson José da Silva Filho não foi localizado para comentar o caso.
O prefeito de Sorocaba (SP), Rodrigo Manga (Republicanos), também foi investigado no caso, mas em São Paulo, já que tem foro privilegiado. Lá, o caso foi arquivado.
O processo no MP criminal se refere ao mesmo caso em que Manga e Carrara tiveram os bens bloqueados pela Justiça, em 22 de maio.
Entenda a denúncia
Segundo a denúncia, assinada pelo promotor Welington dos Santos Veloso, o grupo teria direcionado o pregão eletrônico nº 165/2021 para favorecer a empresa Carthago Editorial Ltda, representada por Freddi, que atuou como intermediária de outra empresa ligada a Wilson. O edital teria sido elaborado com exigências restritivas, inviabilizando a concorrência.
Os denunciados pelo MP são:
Márcio Bortolli Carrara, ex-secretário da Educação da Prefeitura de Sorocaba;
Fausto Bossolo, ex-secretário da Administração da Prefeitura de Sorocaba;
Wilson José da Silva Filho, empresário;
Omar Freddi, empresário.
A denúncia aponta que a intenção do grupo sempre foi adquirir esse kit em específico, utilizando-se de "interposição fraudulenta", já que a Carthago, que é uma editora de livros, atuou apenas como intermediária comercial de uma outra empresa de tecnologia ligada a Wilson.
Superfaturamento e 'robô de madeira'
A denúncia relata problemas com relação à qualidade e ao superfaturamento do preço do material entregue à prefeitura de Sorocaba. De acordo com um parecer técnico que está na ação, os itens adquiridos sequer podem ser classificados como robôs, consistindo em um material de montagem recreativa.
Um laudo técnico apontou que os materiais entregues deveriam ser classificados como brinquedos de montagem com peças de MDF e luzes de LED, sem software ou componentes programáveis. O custo de produção do kit mais complexo foi estimado em R$ 70,61, enquanto a prefeitura pagou valores muito superiores.
A denúncia também destaca superfaturamento: o mesmo kit foi vendido pela fornecedora a uma instituição privada por R$ 360, metade do preço pago pela Prefeitura de Sorocaba.
MP denuncia ex-secretários municipais de Sorocaba (SP) e dois empresários por fraudes em contrato de kits de robótica de R$ 26 milhões
Marcel Scinocca/g1
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